Roteiro – 5 museus sobre a história da medicina no Brasil

Por Fernanda Trotta

Peças raras, que guardam a memória da Medicina no Brasil, são expostas em 26 museus, nas cinco regiões do país. Além da possibilidade de conhecer mais sobre a história da própria profissão, os locais são uma boa oportunidade de lazer para o médico e até para a família

Qual a importância de um médico conhecer a história da sua profissão? Para o idealizador do Museu de Medicina de Pernambuco, Fernando Figueira, “o médico que só sabe Medicina sabe muito pouco”. É preciso rever o passado para entender o presente e vislumbrar o futuro. Para manter essa memória viva, o Instituto Brasileiro de Museus(Ibram), responsável pela melhoria dos serviços no setor e pela preservação de acervos, realiza o Cadastro Nacional de Museus, cujo objetivo é integrar as mais de 3 mil instituições cadastradas. Entre elas, 16 se intitulam museus de Medicina e dez ainda não possuem o registro.

Com um universo de 26 museus, distribuídos nas cinco regiões do país, a Doc Academy selecionou os mais ricos em peças e documentos que contam a história da Medicina brasileira. Os acervos são, na grande maioria, compostos por peças particulares de médicos e professores ou doações adquiridas por sistema de coleta. Quanto à organização, cada instituição tem seu modelo. Alguns museus organizam seus acervos por especialidades médicas, enquanto outros possuem coleções de arte junto às peças relacionadas à Medicina.

Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais (Cememor)

Inaugurado há mais de 40 anos na Federal de Minas, museu reúne peças importantes em seu acervo

O Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais (Cememor) foi inaugurado em 1977 na cerimônia pelo Jubileu de Ouro da primeira turma de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Os problemas de saúde só poderão ser enfrentados se houver um razoável conhecimento de sua realidade histórica, a começar pela história da Medicina brasileira e de seu ensino”, enfatiza o professor e especialista em História da Medicina da UFMG, João Amílcar Salgado.

Disparador manual de aparelho de raio-X

Disparador manual de aparelho de raio-X. Foto: Bruna Carvalho/Centro de Memória da Medicina – UFMG

O acervo foi reunido com doações do ex-diretor da faculdade, Luiz de Paula Castro, com livros de bibliotecas de famílias de estudantes, além de documentos e peças de médicos poetas e artistas plásticos. O local conta com o Horto Medicinal Frei Veloso voltado à memória fitoterápica e o primeiro manual de Clínica Geral brasileiro, que traz a experiência do cirurgião Luís Gomes Ferreira, em Sabará e Vila Rica, desde 1710.

Serviço

O Cememor fica na Avenida Professor Alfredo Balena, 190, sala 7, em Belo Horizonte (MG). A visitação é de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h e das 14h às 17h. Mais informações em www.medicina.ufmg.br/cememor

Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul (MUHM)

No Sul, espaço de divulgação e preservação da história da Medicina conta com acervo de 18 mil peças

Em 18 de outubro de 2006, em referência ao Dia do Médico, o Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul (MUHM) foi inaugurado como um espaço de preservação e divulgação de memória da Medicina do estado. Segundo Éverton Quevedo, diretor-técnico do museu, o acervo é composto por 18 mil itens, entre documentos, livros e peças históricas. “Entendemos que o tema Saúde está intimamente ligado a todos. Assim, mais que um museu de Medicina, a instituição aborda uma série de questões socioeconômicas que envolvem a sociedade”, revela.

O MUHM mantém duas exposições fixas, sendo uma de longa duração e outra temporária: respectivamente Desafios: a Medicina e a luta pela vida e 30 anos de Aids no Rio Grande do Sul: A Medicina vencendo a batalha. Além disso, o museu investe em exposições itinerantes, como Mulheres e práticas de saúde: a Medicina e a fé no universo feminino, que já circulou pelo estado.

Projetor de lâminas

Projetor de lâminas exposto no museu. Foto: Letícia Castro

As exposições focam nos processos que levaram a Medicina à situação técnica atual. “Acho muito importante que o médico conheça a história da sua profissão, pois, somente a partir do momento em que se descobre a trajetória e os processos de formação de uma identidade profissional, é possível entender a colocação e importância dessa atuação para a sociedade”, defende Éverton Quevedo.

Uma das principais peças do acervo é o esqueleto Joaquim, doação da família de um médico austríaco que chegou ao Rio Grande do Sul em 1898. Importado da França, foi usado como instrumento de estudo por gerações de médicos da família. O diferencial do museu é não se restringir a atividades internas. Ações como o Museu vai ao parque e o Mateada da Primavera permitem que qualquer pessoa tenha acesso às exposições ao ar livre.

Esqueleto Joaquim

Esqueleto Joaquim doação da família de um médico austríaco que chegou ao Rio Grande do Sul em 1898. Foto: Letícia Castro

Serviço

O MUHM fica na Avenida Independência, em Porto Alegre (RS). A visitação é de terça a sexta-feira, das 11h às 19h, e aos sábados, domingos e feriados, das 14h às 19h. Durante o horário de verão, o museu abre e fecha uma hora mais tarde. Mais informações em www.muhm.org.br.

Museu Engenheiro Augusto Carlos Ferreira Velloso

Objetos e documentos raros fazem parte do acervo de 7,5 mil peças na Santa Casa de São Paulo

Fundada há quatro séculos, a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo foi a primeira instituição de saúde da capital. História é o que não falta. Por isso, o Museu Engenheiro Augusto Carlos Ferreira Velloso, localizado na Provedoria da Santa Casa e inaugurado há 14 anos, traz peças datadas do século XVIII que fazem parte da memória da Medicina brasileira. “Foram dez anos para organizar todo o acervo antes da inauguração. Recolhemos objetos da própria Santa Casa, materiais reciclados, além de peças de depósitos e ferros velhos de vários hospitais”, conta a coordenadora do museu, Maria Nazarete Andrade.

O acervo conta com 7,5 mil peças, incluindo objetos da Revolução Constitucionalista de 1932. A pinacoteca abriga 192 retratos pintados a óleo sobre tela, de mais de 55 pintores renomados. A antiga ala da farmácia possui cerca de 700 objetos, entre eles, vidros de remédios de 1820 com rótulos de letras banhadas a ouro e documentos com técnicas antigas, como o teste de gravidez Galli-Manini, realizado com auxílio de um sapo, em que a gravidez era confirmada após a urina da mulher ser injetada no animal e ele produzir espermatozoides.

Ala da Farmácia do Museu Engenheiro
Augusto Carlos Ferreira Velloso. Fotos: Drika Barbosa

Outra peça é a Roda dos Expostos. Criada na Itália no século XII, chegou ao Brasil 600 anos depois e só foi extinta em 1949. Era destinada a receber crianças abandonadas. O bebê, colocado no cilindro, ia para o interior do abrigo após a roda ser girada em 180 graus. Junto à roda, estão 19 livros com registros de 4.696 crianças, sendo o primeiro datado de 1876.

O acervo geral possui 1.800 peças, incluindo um grampeador metálico para cortes cirúrgicos, macas de palha da década de 1920, uma balança pediátrica do século XIX e – o mais curioso – um objeto de 2 metros de altura que servia para retirar pedaços demetal dos olhos de metalúrgicos, intitulado eletroímã, criado na França no século XIX.

Por fim, a ala com o acervo do ortopedista Waldemar de Carvalho Pinto Filho tem 730 peças, como um dos primeiros aparelhos de raios-X do país, da década de 1920, e uma mesa cirúrgica de 1924. “Foram dez anos de construção museológica, com objetos da própria Santa Casa, materiais reciclados, além de objetos de depósitos e ferros velhos dos hospitais Central, Sanatório Vicentina Aranha, São Luiz Gonzaga e D. Pedro II”.

Serviço

O museu fica na Rua Doutor Cesário Mota Júnior, 112 – Vila Buarque, em São Paulo. Aberto ao público de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h30. Entrada gratuita. Mais informações: www.santacasasp.org.br.

Museu da Vida

Localizado na Fiocruz, tem por principal objetivo ampliar o conhecimento em questões ligadas à Saúde

Microscópio Verick que pertenceu a Oswaldo Cruz faz parte do acervo.Foto do Acervo da Reserva Técnica do Museu da Vida(COC/Fiocruz)

Microscópio Verick que pertenceu a Oswaldo Cruz faz parte do acervo.Foto do Acervo da Reserva Técnica do Museu da Vida(COC/Fiocruz)

Inaugurado há quase 20 anos na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Museu da Vida é um espaço de integração entre ciência, cultura e sociedade. “O Museu da Vida preserva a memória, a história da Fiocruz e das especialidades médicas por intermédio de seu acervo museológico”, afirma o historiador Pedro Paulo Soares, coordenador da instituição. “Os objetos, instrumentos e equipamentos médico-científicos, uma vez incorporados ao acervo, são higienizados, descritos e documentados para serem exibidos nas exposições de longa duração do museu e também nas temporárias e itinerantes sobre temas relacionados à história da saúde pública e das doenças”, completa.

O acervo de 2 mil objetos é formado, sobretudo, por equipamentos de laboratórios ou destinados à fabricação de medicamentos e vacinas, instrumentos médicos e científicos e uma pinacoteca. Os objetos mais marcantes são um microscópio francês usado pelo então estudante Oswaldo Cruz, esculturas em gesso encomendadas por Carlos Chagas para ilustrar formas clínicas da tripanossomíase e o primeiro sequenciador de DNA utilizado pela Fiocruz.

Para o coordenador do museu, a importância de o profissional de Saúde conhecer a história de seu ofício está em uma melhor compreensão do presente por meio de estudos históricos, que revelam processos, contextos, sistemas e práticas da Medicina ao longo do tempo.

Serviço

O Museu da Vida fica na Fundação Oswaldo Cruz, na Avenida Brasil, 4.365, Manguinhos, Rio de Janeiro. A visitação é de terça a sexta-feira, das 9h às 16h30, e aos sábados, das 10h às 16h. A entrada é gratuita, mas precisa ser agendada pelo telefone (21) 2590-6747. Mais informações em www.museudavida.fiocruz.br.

Museu do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip)

Ser uma inspiração para a classe médica de Pernambuco é um dos objetivos da instituição

Para preservar uma tradição até então essencialmente oral, a comemoração dos 50 anos do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) promoveu diversas ações para valorizar o patrimônio local, entre elas a modernização e o restauro do Hospital Pedro II e a inauguração do Museu do Imip em 2010.

O museu possui uma exposição de longa duração chamada Imip: uma ideia, um caminho, uma história, que narra a trajetória do instituto, entrelaçada à vida do professor Fernando Figueira, seu idealizador. São três ambientes, com mais de 400 peças. Entre os elementos mais importantes do acervo, estão os registros fotográficos e a reconstituição do cotidiano profissional do pediatra Fernando Figueira a partir de objetos originais doados pela família.

Interior do Imip

Interior doMuseu. Foto: Acervo do Imip

Serviço

O Imip fica na Rua dos Coelhos, 300 – Térreo do Hospital Pedro II, Boa Vista, em Recife (PE). A entrada é gratuita e o museu funciona de segunda a quinta, das 9h às 17h e às sextas das 9h às 16h. Informações em www.imip.org.br.

 



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