Para além das palavras

 O médico é a primeira interface com o paciente e a comunicação entre ambos possui efeitos profundos, que podem levar a resultados díspares na relação do paciente com sua doença.

“O médico é o instrumento mais utilizado na medicina”, dizia Michael Balint e, como tal, deve ser conhecido em seu potencial terapêutico e eventuais efeitos colaterais. O médico é a primeira interface com o paciente e a comunicação entre ambos possui efeitos profundos, que podem levar a resultados díspares na relação do paciente com sua doença.

A verdade é como um remédio: há dose, via e hora para ser administrada. Uma dose baixa não é eficaz, mas uma dose alta demais ou administrada de forma incorreta pode fazer mal. E, para saber qual é a dose necessária, é preciso perceber o paciente como uma pessoa que tem medos, gostos e história. O diálogo é o caminho para o entendimento.

Não importa o que se diz, mas a forma como se diz, e essa comunicação se faz não só pela forma verbal, mas, principalmente, pelo não verbal. Pelas entrelinhas, entonação, postura, gestos etc. A interação entre duas pessoas é o resultado de um universo de variáveis, e no contexto da saúde, influenciadas por um sem número de interferentes, como diferenças de linguagem, medos e fantasias em relação à doença e enorme quantidade de fatores sobre os quais nem sempre temos o pleno domínio.

Por isso, os profissionais de saúde e os médicos, em particular, deveriam conhecer em profundidade os meandros da comunicação dinâmica, já que ela é parte fundamental do tratamento. Quem trabalha nessa área deve estar minimamente esclarecido sobre a importância e o impacto que a comunicação exerce, tanto no consolo quanto no sofrimento.

Não há dúvida de que existe certo grau de habilidade inata para a comunicação, mas também se pode negar que esse processo pode ser aprendido e treinado até a maestria, sendo acessível para todo e qualquer profissional. Não tem a ver com vocação, mas com determinação para buscar uma habilidade que é essencial no cuidado em saúde e na interação humana.

Enquanto mal-entendidos podem causar efeitos até mesmo cômicos no cotidiano, nas situações em que se trata de saúde, os efeitos podem ser dramáticos. Uma pessoa que não compreendeu exatamente sua situação e as recomendações do médico pode construir uma ideia errônea de seu quadro clínico e fazer escolhas inadequadas, tomando medidas que podem não ser as mais pertinentes.

Cabe ao profissional buscar a habilidade para comunicar-se com clareza e avaliar o impacto que sua atitude, ao se comunicar, produz na compreensão e no emocional do paciente, ajustando suas atitudes, principalmente as não verbais, para produzir os efeitos desejados. Palavras são só palavras, mas a forma e o contexto em que são ditas lhes dão um imenso poder.

É fácil ensinar técnicas específicas para expressar ideias em palavras. Podemos ensinar o que dizer e como dizer. Podemos até treinar comportamentos não verbais, há métodos específicos para isso, exigindo apenas disponibilidade e interesse. No entanto, o mais difícil é a aquisição da habilidade em ouvir e, mais do que isso, perceber o outro realmente. Ler nas entrelinhas, escutar no silêncio, desenvolver empatia e conectar-se íntima e sinceramente com o outro é a parte mais difícil. Mesmo assim, é possível adquirir essas habilidades.

 

*Ricardo Caponero é oncologista graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP); possui especialização em Oncologia pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC); é coinvestigador de Pesquisas Clínicas Nacionais e Internacionais Multicêntricas e trabalha na Clínica de Oncologia Médica (Clinonco)



Categorias:Artigos

Tags:, , ,

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.