Saúde corporativa: um novo conceito

Se você nunca ouviu esse termo, considere-se bem-vindo ao grupo de médicos que não sabe, não entende ou tem ojeriza dessa especialidade tão fascinante que é a Medicina do Trabalho.

Durante o curso de Medicina, o grande enfoque e estímulo são para a área assistencial, quando ocorre um verdadeiro descortinamento deste maravilhoso mundo da cura, dos heroicos procedimentos cirúrgicos e a beleza do relacionamento médico-paciente. Por outro lado, outras especialidades médicas não despertam no estudante tantas emoções em um primeiro momento e acabam entrando na vida profissional depois de algum tempo da formado, muitas vezes como uma segunda especialidade. Considero que a Medicina do Trabalho faz parte do segundo grupo, ou seja, para ter a capacidade de ver os encantos desta especialidade, existe a necessidade de alguma experiência de vida, um amadurecimento pessoal e uma melhor percepção de contexto.

A interface entre as diversas legislações, levar em consideração as questões trabalhistas, previdenciárias e assistenciais para se concluir uma consulta médica realmente não são tarefas para qualquer profissional. É preciso muita preparação, assim como em qualquer outra especialidade. O fato é que a Medicina do Trabalho não pode ser considerada um bico, um simples ganha-pão, algo para se fazer sem compromisso, pois o nível de responsabilidade é enorme (com o paciente, com as empresas, com o sistema previdenciário e, principalmente, com a sociedade).

O movimento que o Conselho Federal de Medicina e a Associação Médica Brasileira vêm realizando por meio da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) para trazer maior credibilidade ao processo de formação do especialista – a sua equiparação ao programa de residência médica – é de grande importância e vai ao encontro da necessidade do mercado empresarial, que passa a exigir profissionais com sólida formação dentro das empresas para conduzir esse processo.

A grande beleza da Medicina do Trabalho é a chance de poder trabalhar com a saúde, e não somente com a doença, é poder interferir nos processos de trabalho para que não gerem alterações de saúde e investir em programas de promoção de saúde para mitigar o risco de doença. Esses são os pilares de uma Medicina do Trabalho bem feita, seguindo para um patamar mais elevado da saúde ocupacional. E, para desempenhar esse papel, o médico tem que sair de sua zona de conforto e garantir um bom relacionamento com todos, possuir grande poder de argumentação, saber se comunicar com os diversos públicos e ter profundo conhecimento sobre gestão, afinal, diversos aspectos administrativos serão considerados em sua avalição de desempenho.

A tendência atual é internalizar nas empresas o conceito de saúde corporativa, quando todos os aspectos relacionados à saúde seriam gerenciados por uma única área, permitindo a identificação de problemas, diagnósticos epidemiológicos e soluções mais adequadas para cada tipo de problema. Isso possibilita que se evite desperdícios (retrabalho, absenteísmo, doenças ocupacionais, aumento de sinistralidade no plano complementar de saúde) e, obviamente, aumento da competitividade da empresa, na medida em que abaixa seus custos internos (também conhecidos como custos operacionais).

Portanto, para exercer essa função o médico deve assumir o papel de gestor da saúde de determinado grupo, entender seu comportamento e ter um diagnóstico claro das patologias prevalentes (tanto assistencial como ocupacional). Ainda, é preciso que ele haja de forma holística, a fim de garantir a melhor assistência possível para os doentes e o melhor estímulo possível para que os saudáveis diminuam o risco de adoecerem, caminhando, assim, para a sustentabilidade do sistema de saúde da empresa.

Modelo de Saúde da Medicina Holística

Modelo de Saúde da Medicina Holística

Como se sabe, a saúde é reflexo da organização de uma sociedade ou de um grupo. Quando falamos de uma empresa, cada uma tem suas características e personalidade única, que podem ser geradoras de doenças ou um estímulo para a saúde completa. Portanto, cabe ao médico gestor da saúde corporativa ter a clara percepção dessas características e trazer soluções individualizadas específicas para cada situação, trabalhando os erros e sucessos, ao longo do tempo.

Profissionalmente, esse tipo de trabalho é muito gratificante, permitindo surfar entre as diversas especialidades, garantir a saúde de um grupo de pessoas e fazendo valer os princípios de Hipócrates.

Eduardo D’Aguiar é médico, fellow da Fundação Eisenhower, dos Estados Unidos, dire­tor executivo do capítulo brasileiro Abefellows, professor do Programa de Educa­ção Continuada da Fundação Getúlio Vargas (SP) e do curso de espe­cialização em Gestão em Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein (SP). Autor do livro Gestão hospitalar – o papel do médico gestor, publicado pela DOC Content



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