Série especial – Quanto ganha um médico no Brasil? Análise por região

 

Por Bruno Bernardino e Gabriela Rezende

O DOC Academy continua com a série especial “Quanto ganha um médico no Brasil“, agora com uma análise por região do país e os principais desafios para cada uma delas. Nos posts anteriores trouxemos um infográfico, além de comparações sobre os rendimentos dos médicos brasileiros e os vencimentos de profissionais de outros países. Veja nesta terceira parte as principais mudanças ocorridas no cenário nacional e como elas afetam a rotina e os rendimentos dos médicos.

 

Fatores que influenciam no valor do salário do médico

Região Centro-Oeste

São muitos os desafios do médico na região centro-oeste, segundo o presidente do Sindicato dos Médicos de Goiás (Simego), Rafael Cardoso Matinez. E o maior deles é trabalhar com condições adequadas para exercer uma boa medicina – segurança, insumos, medicamentos e boa remuneração. ”De uma maneira geral, em todas as esferas da medicina o desafio é mantê-la como uma das profissões mais respeitadas do país”, pontua.

Para Martinez, o panorama profissional médico mudou bastante desde 2009. Houve um grande aumento do número de faculdades de medicina, logo, aumentou muito o número de médicos na região. “Além disso a culpabilidade do médico pelo tomador de serviço também aumentou bastante, existe uma onda atual de culpar o médico pela ineficiência do sistema de saúde, trazendo mudanças negativas na área médica”, constatou.

Paulo Roberto Dutra Leão, professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso e ex-vice-Presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) da região Centro-Oeste, afirma que o custo de uma vida modesta, considerando as despesas com educação dos filhos, manutenção da moradia e consultório, não é baixo. “Só com secretária há um custo de, no mínimo, R$ 2.000, considerando os encargos trabalhistas”, defende. Para ele, a questão dos salários é muito complicada na região. “Conseguir que as prefeituras, principalmente, paguem os salários em dia e uma reavaliação dos valores pagos é um desafio enorme”, lamenta.

De acordo com o presidente do Simego, a remuneração não é totalmente justa, alguns tomadores de serviço remuneram em uma faixa de preço que o sindicato considera aceitável, mas para uma negociação posterior. “Em Goiás nós não temos a informação de nenhum caso do pagamento do piso da Fenam. E o que é praticado, principalmente no serviço público, é muito aquém do que a profissão exige como dignidade para trabalhar”, argumenta.

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Região Nordeste

Desde 2009, quando abordamos a remuneração nesta região na reportagem “Quanto ganha o médico?”, pouco mudou. É o que conta o neurocirurgião Nazareno Pearce Brito. Para ele, não só há uma discrepância relevante entre o que é recebido nos setores público e privado, como em ambos há uma remuneração injusta para uma profissão exigente e desgastante. “Trabalho atualmente em uma região que centraliza o atendimento médico de toda a macrorregião meio norte, em cerca de 4.435 médicos para 3.195 milhões de habitantes. Vivemos em uma das regiões mais pobres do país e, contraditoriamente, temos um alto custo de vida”.

Para Brito, o médico é responsável pelo seu próprio progresso ao investir em qualificação, treinamento e uma boa e real assistência aos pacientes, que serão os veículos divulgadores do trabalho bem feito. Porém, uma perspectiva positiva para a classe é difícil “considerando a situação de instabilidade e descrença que o nosso país claudicante atravessa”.

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Região Norte

As dificuldades sentidas em todo país também reverberam na capital amazonense, Manaus, apesar de ter sido, talvez, a última região a entrar na crise, como explica o médico pediatra Carlos Eduardo Nazareth. “Também será a última a voltar à normalidade, pois a influência do Distrito Industrial na cidade é muito grande, e só voltaremos a produzir a partir do momento em que aumentar o consumo no resto do país”, diz.

Nazareth aponta que ficou afastado por três anos da cidade (de 2013 a 2016) e, quando retornou, encontrou um cenário diferente do que estava acostumado. “Encontrei uma Manaus com os salários dos médicos muito baixos. Aqui os salários sempre foram muito acima do Rio de Janeiro e isso se inverteu”, relata. “A remuneração não é justa e o serviço público vê a população como uma estatística, em que só o que importa são os números altos de atendimento e não a qualidade”.

Apesar disso, ele destaca que o serviço público da cidade ainda é superior ao de outros lugares do Brasil. “Admito que o sistema de saúde pública de Manaus está bem acima do que vivenciei no Rio. A população é melhor atendida nos hospitais do governo e tem uma estrutura melhor. Por isso, acredito que os salários deveriam ser equivalentes aos cargos, algo que estamos muito longe de alcançar ainda”, afirma. “Manter um consultório por aqui sai na faixa de R$6 a R$7mil. Assim, é necessário associar-se a, no mínimo, um colega para que valha a pena”.

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Região Sudeste

Nos últimos 10 anos ampliou-se o número de entidades administrando equipamentos públicos. De acordo com o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), Éder Gatti, isso levou a uma transformação no cenário profissional médico na Região Sudeste que, ao mesmo tempo em que aumentou a precarização dos vínculos empregatícios, reduziu os concursos públicos. “O maior empregador é o Sistema Único de Saúde (SUS), mas ele não tem uma política homogênea, não permite uma carreira pública com trabalho médico organizado. Então, não há concursos públicos, os governos vêm diminuindo muito o número de vagas e alguns até não fazem mais concursos. As unidades de saúde, em sua grande maioria, encontram-se terceirizadas para organizações sociais”, lamenta.

Para Afonso Henriques dos Santos, ginecologista e obstetra, na Região Sudeste assim como no Brasil, as coisas têm características políticas marcantes. E o grande aumento do número de faculdades de Medicina funcionando hoje é um problema. “Um dos maiores desafios da carreira médica é a concorrência. O número de médicos na região é enorme. O estabelecido pela OMS seria um médico para cada mil habitantes, Rio e São Paulo estão com uma média de um para 160. Nem os EUA têm essa média, além de ter cerca de 20% a 25% menos faculdades de medicina que o nosso país”, ressalta.

“A remuneração do médico, de maneira geral, na região Sudeste não é justa. Como pode um médico, um servidor federal chegar no final da carreira ganhar o mesmo que os médicos recém-formados das Clínicas da Família”, argumenta Afonso. Ele diz que por mais que as Clínicas sejam ótimas para a população e apresente qualidade no atendimento, não é algo justo. “Isso acontece porque em nosso país as coisas acabam sendo realizadas para suprir necessidades de curto prazo”, afirma. “Salários distantes da dignidade da profissão levam os médicos a aceitarem subempregos e não terem oportunidade de se credenciar melhor para o seu futuro”.

A realidade hoje, na visão do presidente do Simesp, é que o médico precisa ter no mínimo três empregos para conseguir uma remuneração que julgue digna pela formação que teve. “O médico ainda tem uma faixa salarial relativamente alta perante a outras categorias, mas isso tem um custo alto, pois ele precisa trabalhar muito para alcançar esse patamar”, defende.

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Região Sul

Para o ortopedista Osvandre Lech, há muita variação de salários em sua região. Ele acredita que a remuneração salarial da carreira é reflexo direto do poder aquisitivo da comunidade a que o profissional serve. “Por isso a inaceitável concentração de médicos nas grandes cidades e a escassez deles nos bolsões de pobreza e nos cargos públicos”, endossa.

De Porto Alegre, Rio Grande do Sul, ele crê que os médicos vivem um dos momentos mais difíceis no que se refere a honorários profissionais, além de carregar o estereótipo de ter uma carreira que é muito bem remunerada. “A fama de rico é uma herança do século passado, quando o médico era ligado à figura de alguém bem-sucedido economicamente”, diz. “Assim, o médico tende a manter um estilo de vida acima daquilo que consegue custear e a conta não fecha”.

Para mudar o cenário, o ortopedista considera que o profissional deve preparar-se cientificamente ao máximo, sem pressa para concluir os vários cursos necessários para especialização; entender sobre inteligência financeira e conceitos modernos e éticos de marketing médico; estar disposto a enfrentar a concorrência cada vez maior no mercado; e estabelecer planos de médio e longo prazo.

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Categorias:Carreira Médica

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