Inspirações que movem a Medicina – Allex Itar Ogawa

Sou uma pessoa muito prática. E é com essa praticidade que digo: eu nunca sonhei em fazer Medicina. A decisão veio em última hora, até porque pelos testes vocacionais, eu deveria ter sido engenheiro. Desde sempre eu penso se estamos realmente maduros para escolher uma profissão aos 17 ou 18 anos. Então, sendo mais prático ainda, analisei as minhas possibilidades. Como sempre fui um bom aluno, as chances de passar no vestibular eram boas. Quanto à carreira, era reconhecidamente boa, com possibilidades de crescimento. Sem contar o campo gigantesco – costumo dizer que quem não sabe o que quer deve fazer Medicina, porque, de um jeito ou de outro, acaba se encontrando. Pois foi assim que aconteceu comigo.

Não tenho o discurso romântico “fiz Medicina para salvar vidas”. Mas, depois que entrei, o coração falou mais alto, e me apaixonei. Só que sem deixar de ser prático: eliminei rapidamente as especialidades que eu julguei distantes do que eu queria, que era uma relação social e de proximidade com os pacientes. E sou prático até hoje, a ponto de não ver nós, médicos, como um elo entre o céu e a terra, como muitos pacientes nos colocam. Tampouco faço questão de que meus filhos sigam a carreira – embora eu tenha muito amor no que faço e sinta prazer em exercer a profissão. Isso, contudo, não nasceu comigo. Essa paixão veio com o tempo. Todas as profissões, a meu ver, têm o seu valor. Nós, médicos, não somos melhores ou piores que outros profissionais. Somos, simplesmente, médicos.

Também sou professor. E adoro, porque aprendo muito com os meus alunos, vejo eles evoluírem e evoluo com eles. Se eu ganhasse na loteria, trabalharia menos no consultório e não abriria mão das aulas. Porque gosto de ser referência para os meus alunos. Além disso, tenho minhas atribuições como presidente do Comitê de Comunicações da ABORL-CCF. Trata-se de um trabalho voluntário, no qual supervisiono a revista, o site, os releases para a imprensa, a newsletter e as redes sociais. Tudo passa por mim. Entrar para uma faculdade de Medicina hoje é mais simples que na minha época, dado o grande número de universidades privadas, que inundam o mercado.

A profissão ainda é rentável e bem reconhecida, mas no futuro, sinceramente, não sei se esta será a realidade, ou mesmo se a Medicina terá tanto sucesso entre os jovens.

Allex Itar Ogawa

Allex Itar Ogawa

Allex Itar Ogawa é otorrinolaringologista; professor-assistente da PUC-PR (Campus Londrina); presidente do Comitê de Comunicações da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF)

Sem contar aqueles que escolhem a profissão pelo dinheiro, e acabam, por causa disso, atendendo cada vez mais rápido, prejudicando a relação com o paciente. Quem tem essa postura não acerta, e ajuda a aumentar os casos de judicialização. Focar a parte financeira não deve ser o principal. Nem a estabilidade. Veja quantas pessoas trabalham no poder público e estão deprimidas – ou porque estão fora da área, ou porque a rotina massacra… Gosto da Medicina porque não tem rotina, cada caso é único. Sempre temos um paciente que nos agradece por um cuidado, nos elogia. Isso é gratificante. O que me fez amar a minha profissão foram os pacientes. Fazer a diferença na vida de alguém, ajudar a melhorar, isso não tem preço. Ser honesto no diagnóstico é tudo, mostrar que você quer acertar ajuda a consolidar a relação com os pacientes. Escutar um paciente é mais terapêutico do que dar um remédio! Isso me traz a maior alegria, e eu sempre chego feliz em casa. A Medicina não é a prioridade na minha vida – minha família está e estará sempre à frente. Mas, para ser feliz, preciso da Medicina.



Categorias:Carreira Médica

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