Consultórios médicos em tempo de crise

Consultório em tempo de crise

Os consultórios médicos em sua maioria são prestadores de serviço à saúde suplementar e, portanto, são afetados diretamente pela crise

1,37 milhão de pessoas deixaram os planos de saúde em 2016, de acordo com dados do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), organização sem fins lucrativos. O resultado negativo do setor se deve ao cenário econômico desfavorável e à queda do nível de emprego no país, com a redução de postos de trabalho formais. Ainda, não há como esperar uma retomada consistentemente positiva do mercado de planos de saúde médico-hospitalares sem a manutenção do saldo positivo de empregos formais.

Considerando-se que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desocupação no país continua em alta e atingiu 13,7 milhões de desempregados no trimestre encerrado em março de 2018, como ficam os consultórios médicos particulares? Os consultórios médicos em sua maioria são prestadores de serviço à saúde suplementar e, portanto, são afetados diretamente pela crise. Diminui o número de pacientes nos consultórios e sobrecarrega-se o Sistema Único de Saúde (SUS).

Dentro desse contexto e para piorar a crise para o médico do setor privado, o índice de Variação de Custos Médico-Hospitalares, que capta o comportamento dos custos das operadoras de planos de saúde com consultas, exames, terapias e internações, registrou alta de 19,4% nos 12 meses encerrados em setembro de 2016. É a maior variação para o período (setembro de um ano ante o mesmo mês do ano anterior) registrada pelo indicador produzido pelo IESS desde o início da série histórica, em 2007.

A título de comparação, a inflação geral do País, medida pelo IPCA, ficou em 8,5% no mesmo período. Considerando-se que nos procedimentos médicos há itens que muitas vezes dependem de importações, provavelmente boa parte do aumento real desses custos se deve à grande variação cambial nesse período. Logo, esse índice aponta recorde no aumento dos custos enquanto o setor continua a registrar quedas consecutivas no total de beneficiários (veja o gráfico abaixo).

Gráfico: Taxa de crescimento (%) do número de beneficiários dos planos de saúde em relação a dezembro do ano anterior (Brasil – 2007-2017). Fonte: ANS (http://www.ans.gov.br/perfil-do-setor/dados-gerais)

Outro aspecto importante, é o número de profissionais formados. Segundo dados da pesquisa Demografia Médica, o crescimento exponencial do número de médicos no país já se estende por mais de 50 anos. De 1970, quando havia 58.994 registros, até 2015, o aumento foi de 633% (399.692 médicos). No mesmo período, a população brasileira cresceu 116%. Ou seja, o total de médicos nesses anos aumentou em maior velocidade do que o crescimento populacional.

À primeira vista, parecem dados positivos. Mas, em uma análise mais ampla, é fácil perceber que existem problemas. “Nenhum governo investiu o que deveria na saúde pública e a medicina suplementar ganhou força sem uma lei que a regulamentasse até a edição da Lei 9656/98”, avalia Lavínio Nilton Camarim, médico cirurgião e vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

Além disso, desses profissionais graduados, cerca de 60% trabalham em consultório privado (inclui o consultório particular isolado, consultório compartilhado, clínica ou ambulatório privados), o que gera forte concorrência no mercado.

No consultório

Nesse cenário, a decisão de abrir ou manter um consultório próprio requer muito planejamento, já que a crise o afeta de várias formas. Menos pacientes procuram os consultórios, consequentemente aumentam as horas ociosas e os custos de manutenção. Ainda, com o aumento da concorrência e do valor de insumos e equipamentos, o valor de qualquer investimento deve ser analisado com muito cuidado, incluindo reformas, instrumentos e cursos de atualização.

Dessa forma, essa é uma decisão estratégica individual, explicou Rafael Klee de Vasconcellos, médico especialista em Cirurgia Oncológica e diretor de economia médica da Associação Médica Brasileira. Quanto aos cuidados, primeiramente o profissional deve primar pela melhor formação possível.

A boa escola médica é o início do caminho, assim como a especialização em programas de residência médica validados pelo Ministério de Educação e Cultura (MEC), Comissão Nacional de Residência Médica ou Sociedades de Especialidades ajudam a consolidar a formação. Só então o profissional deve aventurar-se na atividade profissional propriamente dita com maiores chances de sucesso, mas sempre buscando atualizações, muitas vezes fornecidas pelas próprias Sociedades ou pelos Conselhos.

Cada especialidade médica, cada região do país, cada estado e cada cidade tem seus detalhes a serem observados. Importante observar critérios éticos de atuação, assim como atentar para as questões administrativas, tributárias, financeiras e jurídicas envolvidas na atividade. As entidades médicas – associações, conselhos, sindicatos e sociedades de especialidades – devem ser referências a serem seguidas.

Na crise, também há diferenças entre os especialistas. “As especialidades mais afetadas pela crise são aquelas em que a consulta é o principal serviço prestado: a clínica médica, a pediatria, a geriatria”, afirma Klee. “As especialidades cuja atividade envolve procedimentos, sejam eles com finalidade diagnóstica ou terapêutica, conseguiram se preservar na crise, ao negociar melhores preços para os procedimentos. Houve também especialidades que desenvolveram melhor capacidade de negociação com os compradores dos serviços e maior compreensão dos custos envolvidos, logo souberam estabelecer parâmetros e objetivos a serem seguidos no momento de fixar os preços”, continuou o oncologista.

Saídas possíveis

Os médicos devem estar atentos às questões administrativas, tributárias e de custos. Diminuir as horas ociosas e propor a um colega dividir o consultório, por exemplo, é uma boa opção. “É importantíssimo estabelecer metas. E, em consultório médico, isso significa cliente bem atendido e satisfeito. A percepção de qualidade, baseado no tripé estrutura, processo e resultado deve ser o objetivo de grandes prestadores, mas deve também ser buscado nos consultórios individuais ou coletivos”, recomenda Klee.

Sem as longas filas da saúde pública, ou as altas mensalidades dos planos, as chamadas clínicas populares se expandem no espaço deixado pelos dois sistemas de saúde, o público e o privado. Paulo Cesar Rozental Fernandes graduou-se em Medicina em 2011 e fez MBA Executivo em Saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV); além de residência em Cirurgia Geral e em Videolaparoscopia.

Ele abriu uma clínica popular que atende mais de 15 especialidades e tem estrutura completa para atendimento ambulatorial, além de exames de imagem e laboratoriais, próximo à Praça da Sé em São Paulo, capital. “Onde há problemas, também há oportunidades para novos modelos”, afirma para explicar porque decidiu iniciar o negócio – não sem antes avaliar os riscos.

“Nossas análises de mercado avaliaram os concorrentes e seus preços praticados. Contudo, não consideramos as queixas destinadas apenas às clínicas populares, mas sim a todo e qualquer estabelecimento que fornecesse atendimento ambulatorial, fosse ele público ou privado”, explica. Camarim, do Cremesp, acredita que as clínicas populares são uma consequência do cenário em que a saúde suplementar é cara e o SUS não consegue suprir a demanda.

Essa perda progressiva do controle sobre as condições de trabalho médico transforma também a relação entre o médico e o paciente. Por isso, o médico pode e deve facilitar, sempre que possível, o acesso de seus pacientes à saúde, seja reduzindo preços ou facilitando pagamentos, para mantê-los. Tudo, entretanto, deve ser feito dentro das normas éticas da profissão. “Valores éticos como transparência, honestidade, honra e justiça não podem ser negociáveis”, sintetiza Fernandes.

Perspectivas futuras

Os custos elevados e a diminuição dos beneficiários exigem mudança rápida de curso na saúde suplementar. Com a crise estabelecida surgiram e multiplicaram-se as clínicas de consultas com preços acessíveis, e hoje estudam-se os planos de saúde com preços mais baixos, mas que provavelmente não garantirão a integralidade dos tratamentos.

“Enfim, as crises são oportunidades de crescimento, estabilização e segmentação, conforme o posicionamento estratégico adotado. É essencial ter ciência que o consultório é como uma empresa e os conceitos administrativos modernos de planejamento, execução, avaliação e controle devem ser aplicados na prática diária. Esse mercado está em permanente evolução”, concluiu Klee.



Categorias:Gestão e Finanças

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