Você conhece os pacientes “Millennials”?

 

Bruno Bernardino com a colaboração de Paula Netto

O termo Geração Y surgiu nos Estados Unidos para designar o grupo de nascidos a partir dos anos de 1980 (atualmente, jovens na faixa etária dos 21 aos 35 anos). Ao contrário da geração anterior, chamada de Geração X, o grupo dos Y (também conhecido como Millenials) nasceu praticamente ao mesmo tempo em que a computação pessoal e a entrada dos dispositivos eletrônicos na rotina das pessoas.

É, também, a geração que cresceu vendo o mundo passar por grandes quebras de paradigmas: a possibilidade de comunicação em tempo real e em qualquer parte do planeta, o fim dos principais regimes ditatoriais, o surgimento da Aids, o crescimento das preocupações com o meio ambiente e com a sustentabilidade, a estabilidade econômica do Brasil e a ausência de grandes conflitos mundiais.

Médico generalista e com 32 anos de idade, Fernando Carbonieri faz parte da geração dos Millenials e dedica sua tese de mestrado à relação médico-paciente. Para ele, a forma como os médicos da geração Y se relacionam com os pacientes da mesma faixa etária ou, até mesmo, com os baby boomers, varia muito e depende, basicamente, do que esse paciente quer e o que espera, além do quanto ele acredita na autoridade do médico. “O paciente mais velho segue com aquela percepção de que o que o médico diz é lei.

Então ele vai ao consultório esperando esse tipo de conhecimento do profissional. Sempre houve esse entendimento de que o médico dominava um conteúdo complexo e, por isso, ele sabia mais e o que era melhor para o paciente. O que se vê, agora, com os pacientes da geração Y em relação aos médicos é, muitas vezes, uma ponderação sobre o que o profissional fala”, relata.

“O médico da geração Y atende pacientes da geração X e baby boomers frequentemente, e vice-versa. É preciso buscar esse conhecimento mútuo e estimular a produção de estudos sociológicos e antropológicos com o objetivo de entender os valores de cada geração em prol do maior engajamento possível do paciente”

Fernando Carbonieri

Essa opinião é compartilhada pelo cardiologista Henrique Grinberg, de 35 anos, que reforça o antigo papel do médico como um “sacerdote intocável” em uma época cujo respeito, a seu ver, era excessivo. “Hoje, as coisas estão mais rápidas, até mesmo por causa da evolução tecnológica pela qual nossa geração passou, e isso também influencia a prática médica e as características de atendimento. Vejo essas mudanças como boas. Lógico que existem pontos negativos, mas acredito que elas aproximam o paciente, criando o conceito da continuidade e um estreitamento da relação médico-paciente, desde que feita de maneira respeitosa e educada. A tendência é que isso cresça, cada vez mais, com novas evoluções tecnológicas”, acredita.

A evolução tecnológica citada por Grinberg, aliás, é uma característica predominante entre os Millenials. Para o médico, a tecnologia quebrou barreiras e mudou a forma como os indivíduos dessa geração passaram a se relacionar no ambiente de trabalho, gerando uma mudança de postura por parte dos médicos. “Criou-se a necessidade de estar sempre conectado a tudo o que acontece, caso contrário, o médico fica ultrapassado. É necessário estar sempre com ‘as antenas ligadas para não perder o bonde’. Esse, talvez, seja um dos maiores desafios para a nossa geração. O mais importante é trabalhar de forma séria e responsável sem romper com nenhum princípio ético da Medicina”, aconselha Grinberg.

Com 32 anos de idade e dez de experiência profissional, Anis Ghattás Mitri, médico especialista em Gestão e diretor executivo da rede de Clínicas CECAM, de São Paulo, conta que, ao entrar no mercado de trabalho, teve a impressão de que os profissionais experientes adotavam uma postura superior a todo o ambiente, como se fossem o centro de toda a relação, e não o paciente – muito menos o restante da equipe de atendimento. Já em relação aos mais jovens, cuja idade e a formação eram as mesmas que a dele, a sensação era de que havia um ar de submissão aos médicos da geração X.

“Na realidade, essas impressões não se confirmaram. Depois que eu me tornei mais experiente, percebi que isso varia muito de profissional para profissional, do local de trabalho e tudo mais. Hoje, eu noto o contrário: os médicos da geração X, muitas vezes, são mais humildes e acessíveis dos que os da geração Y. Os profissionais mais jovens, então, têm encontrado uma dificuldade enorme em lidar com os demais no mercado de trabalho. Eles se importam muito com o dinheiro, são mimados e mais soberbos”, opina.

Anis considera os pacientes da geração X e os baby boomers mais respeitosos e confiantes no trabalho do médico do que os indivíduos da geração Y. “Os pacientes mais novos não veem o médico como a fonte da informação, mas, sim, como a confirmação do que eles já pesquisaram e levaram para o consultório. Os pacientes mais velhos tendem a confiar, acreditar e seguir rigorosamente o que o médico diz”, sustenta.

Na opinião de Fernando Carbonieri, as gerações se confundem no consultório e, principalmente, nos serviços de pronto-atendimento, no qual os médicos recebem pacientes de todas as idades e perfis. “Até mesmo por isso, as diferentes gerações entre médicos têm muito o que se somarem. O médico da geração Y atende pacientes da geração X e baby boomers frequentemente, e vice-versa. É preciso buscar esse conhecimento mútuo e estimular a produção de estudos sociológicos e antropológicos com o objetivo de entender os valores de cada geração em prol do maior engajamento possível do paciente”, sugere.



Categorias:Carreira Médica, Marketing Médico

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