Medicina paliativa e os cuidados com a vida

A Medicina Paliativa vem crescendo rapidamente como subespecialidade médica

Os avanços científicos e tecnológicos são em parte responsáveis pela redução da taxa de mortalidade global e pelo aumento da expectativa de vida. No entanto, a maioria dos idosos acometidos por doenças de alta gravidade, como as crônico-degenerativas, ainda não consegue se beneficiar dos recursos mais modernos à disposição da Medicina. Para esses pacientes, os cuidados paliativos são essenciais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu, em 2002, cuidados paliativos como sendo as condutas para melhoria da qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameacem a continuidade da vida, por meio de prevenção, alívio do sofrimento, identificação precoce, impecável avaliação e tratamento da dor e de outros problemas físicos, psicossociais e espirituais. Nesse documento, a OMS também reitera a necessidade de incluir os cuidados paliativos como parte da assistência completa à saúde, no tratamento a todas as doenças crônicas, inclusive em programas de atenção aos idosos.

Dessa forma, a Medicina Paliativa vem crescendo rapidamente como subespecialidade médica responsável pelo cuidado amplo não só a pacientes terminais, mas a todos aqueles que convivem com doenças crônico-degenerativas, como câncer, diabetes, cardiopatias, doenças pulmonares crônicas em estágio avançado, Alzheimer, entre outras.

Em países como Estados Unidos, Canadá, França, Inglaterra e Japão, a terapia paliativista é exercida há pelo menos meio século. No Brasil, as atividades relacionadas a esses cuidados ainda não são regularizadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Reconhecida em 2010 como área de atuação, o objetivo agora é que os cuidados paliativos conquistem o status de especialidade, o que vem sendo pleiteado por entidades como a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP).

A expectativa é de que isso ocorra em um prazo de aproximadamente dois anos. “Essa é uma área que vem crescendo no país. Hoje, os hospitais, para receberem uma acreditação internacional, como da Joint Commission International, que comprova a qualidade da assistência, precisam contar com uma equipe de cuidados paliativos no atendimento aos pacientes”, explica Milena Reis, diretora da ANCP.

Em 2015, um levantamento detectou cerca de 68 serviços brasileiros de cuidados paliativos, sendo que metade desses serviços atua no estado de São Paulo (50%). Segundo a pesquisa, o modelo de atendimento mais prevalente é o ambulatorial (53%), em modelo misto com pacientes oncológicos e não oncológicos (57%). A prevalência é de assistência a adultos (88%) e idosos (84%), e o modelo de financiamento mais comum é o público (50%).

 Formação

Segundo a diretora da ANCP, é fundamental ampliar a discussão e a formação sobre cuidados paliativos para aprimorar o currículo dos cursos de graduação, com disciplinas que tratem da morte e dos cuidados. “É preciso desmistificar a ideia de que os cuidados paliativos só devem ser empregados quando não há mais possibilidade de tratamento e o paciente estiver em condição de terminalidade”, afirma Milena Reis.

Já a residência médica em Cuidados Paliativos apresenta duração de um ano e, para cursá-la, exige-se como pré-requisito a residência médica em uma das seguintes áreas: Clínica Médica, Oncologia, Neurologia, Geriatria e Gerontologia, Medicina de Família e Comunidade, Pediatria e Anestesiologia.

Em relação aos cursos de aperfeiçoamento e especialização voltados para os cuidados paliativos, a ênfase é o aprofundamento do conhecimento teórico-científico e o desenvolvimento de competências e habilidades práticas, integrando o cuidado paliativo às ações que buscam a cura ou o controle das doenças. De acordo com Milena, as habilidades e competências exigidas do médico paliativista diferem das exigidas em outras especialidades médicas, começando pela comunicação, uma das competências fundamentais para quem pretende atuar nessa área.

“A comunicação empática, centrada nas necessidades do paciente, tem demonstrado ser capaz de melhorar a adesão ao tratamento e o prognóstico da doença. É importante que o médico compreenda que a comunicação inadequada pode ser muito prejudicial ao tratamento. Além disso, o profissional precisa desenvolver sua capacidade de gestão, de liderança e de diálogo com a equipe, pois o médico paliativista pode coordenar equipes multiprofissionais, assim como outros profissionais capacitados que atendem o paciente”, explica Milena.

No cuidado paliativo, o foco não é a doença, mas o paciente. Por essa razão, o médico precisa rever conceitos, conhecer o limite da sua atuação e trabalhar com a equipe multidisciplinar formada por enfermeiros, assistentes sociais, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas e farmacêuticos, entre outros. Isso permite otimizar os cuidados em cada área na qual o paciente ou seus familiares tenham necessidade.

 

Desafios na carreira

Ricardo Caponero, coordenador do Centro Avançado em Terapia de Suporte e Medicina Integrativa (CATSMI) do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo, afirma que faltam profissionais capacitados para atuar com a Medicina Paliativa. “Os hospitais precisam de equipes preparadas para lidar com a dor do paciente. Mas muitas dificuldades impedem que o médico opte por essa área de atuação, como a má remuneração, uma vez que a Medicina Paliativa não é reconhecida como especialidade”, conta.

Além disso, segundo ele, cabe ao médico paliativista e a toda a equipe de cuidados estar preparada para atender o paciente em todas as suas necessidades, oferecendo, inclusive, assistência espiritual e assistência ao luto, por exemplo. “Depois que a Medicina Paliativa foi reconhecida como subespecialidade, os profissionais passaram a ter mais conhecimento sobre o que são os cuidados paliativos. Para quem tem como meta ingressar nessa área, é preciso, antes de mais nada, aprender a lidar com a frustração, entendendo que o seu papel não será o de curar, mas buscar maneiras de levar mais qualidade de vida e conforto ao paciente e a sua família”, explica.

Caponero enumera ainda outras competências exigidas desse profissional, como equilíbrio emocional; comunicação e disponibilidade para o paciente e para a sua família; empatia; e conhecimento em diagnosticar, prognosticar e antever sintomas para poder controlá-los e até mesmo preveni-los. O especialista dessa área precisa, ainda, saber como admitir o limite da intervenção médica, oferecer suporte à família do paciente e reconhecer que ele próprio e a equipe multiprofissional também precisam de suporte emocional.

 

Princípios dos cuidados paliativos

A equipe de Cuidados Paliativos tem seu trabalho regido, em todas as atividades desenvolvidas, por princípios claros, reafirmados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2002. Assim sendo, o cuidado paliativo:

– Promove o alívio da dor e de outros sintomas estressantes;

– Reafirma a vida e vê a morte como um processo natural;

– Não pretende antecipar e nem postergar a morte;

– Integra aspectos psicossociais e espirituais ao cuidado;

– Oferece um sistema de suporte que auxilie o paciente a viver tão ativamente quanto possível, até a sua morte;

– Oferece um sistema de suporte que auxilie a família e os entes queridos a sentirem-se amparados durante todo o processo da doença;

– Deve ser iniciado o mais precocemente possível, junto a outras medidas de prolongamento de vida, como a quimioterapia e a radioterapia, e incluir todas as investigações necessárias para melhor compreensão e manejo dos sintomas.



Categorias:Carreira Médica

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