O perigo da síndrome de burnout ao longo da carreira médica

Overworked doctor in his office

Sujeitos a sobrecarga profissional, estresse, ansiedade e longas jornadas de trabalho os médicos podem lidar com síndrome de burnout durante a carreira

Nos últimos anos, a saúde mental dos médicos é um tema de grande preocupação para as entidades profissionais. Nesse cenário, o estresse é algo muito inerente na carreira médica, pois a rotina agitada do profissional envolve, entre outros fatores, longas jornadas de trabalho.

Além disso, o médico lida com diversas frustrações, como a inexistência de cura para certas doenças, o sofrimento alheio, a morte e o fato de que, conforme o seu local de trabalho, não são disponibilizados recursos para que suas funções sejam adequadamente realizadas.

O psiquiatra e psicoterapeuta Wimer Bottura Junior, presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática (ABMP) e do Comitê Multidisciplinar de Adolescência da Associação Paulista de Medicina (APM), avalia que a sobrecarga decorrente da profissão começa já na preparação para o vestibular.

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Essa situação se estende, posteriormente, para o dia a dia na faculdade, na residência e na atividade profissional em si, quando pode ser acentuada. “Um fator de agravo importante é a responsabilidade do profissional em relação à vida das pessoas.

Além das cobranças externas, o próprio médico também se cobra muito quanto a essa responsabilidade. Depois da judicialização da prática médica e da transformação de uma relação pessoal em uma de consumo, esse cenário piorou muito”, considera.

Nessas circunstâncias, Wimer explica que os médicos estão expostos a dois problemas muito comuns relacionados à saúde mental: a ansiedade e o estresse. “Em determinadas áreas da prática médica, esses riscos são aumentados, como em intensivistas e em profissionais de pronto atendimento, em virtude da sobrecarga de trabalho e de responsabilidade”, complementa.

Leonardo Luz, psiquiatra e conselheiro efetivo do Conselho Federal de Medicina (CFM), pontua que as situações que geram o estresse variam de acordo com cada profissional. “Alguns profissionais conseguem trabalhar durante 40 ou 50 horas, mas outras pessoas podem considerar que esse seja um tempo muito prolongado.

Contudo, o médico vem sofrendo as alterações próprias do mercado, ultimamente, pois tem que trabalhar cada vez mais para atingir uma renda que não é a mesma que tinha no passado”, argumenta. E as consequências do quadro profissional acabam refletindo no âmbito pessoal.

Como exemplo, Leonardo cita que os impactos causados pela sobrecarga profissional podem influenciar o tempo reservado para o convívio familiar, o autocuidado, a realização de atividades físicas e outros aspectos.

“Além disso, os profissionais costumam ter dificuldade para pedir ajuda e sair do ‘papel de médico’. Isso porque eles estão mais acostumados a assumir a posição de cuidar do que de serem cuidados”, acrescenta.

Síndrome de Burnout na carreia médica

Caracterizada pelo esgotamento físico e mental intensos, a síndrome de burnout afeta muitos médicos. De acordo com Wimer, essa condição pode interferir na saúde mental do profissional e até refletir na saúde física, gerando sintomas semelhantes aos da depressão.

A condição pode afetar profissionais de qualquer área, mas, de acordo com Leonardo, os médicos são os que mais sofrem com o burnout. “As mudanças no mercado de trabalho fazem com que o médico tenha que lidar com uma alta demanda, não apenas em relação à quantidade de pacientes, mas também quanto à atualização de conteúdo.

Atualmente, com a velocidade com que as informações circulam, a Medicina muda muito mais rápido. A sobrecarga do profissional também pode ser agravada pela falta de reconhecimento e por dificuldades no gerenciamento de agenda. Todos esses fatores podem gerar um grau de insatisfação que reflete, inclusive, na qualidade do atendimento prestado pelo médico”, define o conselheiro do CFM.

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Pessoal versus profissional

Muitas vezes, o médico tem dificuldade em desvincular o que é vivido no âmbito profissional de sua vida particular. Essa situação, que pode interferir na saúde mental do profissional, é observada até mesmo na Psiquiatria.

“A maior fonte de sobrecarga na Psiquiatria é o risco de suicídio, que, infelizmente, tem apresentado um aumento significativo nos últimos anos. Além disso, os quadros de depressão, pânico e transtornos de ansiedade são frequentes. Em contrapartida, temos, hoje, um grande índice de acerto nos tratamentos”, destacaWimer.

Há quase cinco anos, o especialista viu-se intensamente afetado, quando perdeu um paciente por suicídio. “A primeira coisa que me perguntei foi: onde errei? Não dá para negar que, como profissionais, carregamos conosco a dor das pessoas e que nos preocupamos com elas.

Mas, durante esse período, pude contar com a ajuda de bons amigos e terapeutas. Por isso, meu conselho é: peça ajuda e, principalmente, aceite ajuda”, declara.

Leonardo Luz também acredita que as situações presenciadas no trabalho causam impactos na sua vida pessoal. “Considero que eu mesmo, como psiquiatra, sou um exemplo disso, especialmente por escutar diferentes histórias de vida todos os dias. É difícil chegar em casa e ‘desligar o botão’.

Por isso, o psiquiatra costuma ter dificuldade para relaxar, mas não pode deixar o que acontece no trabalho afetar a vida pessoal”, analisa.

O psiquiatra considera que músicas, leituras, filmes e conversas com amigos e familiares podem ajudar a amenizar essa situação. Além disso, o especialista cita que outra atividade vantajosa, mas pouco realizada pelos médicos devido à falta de tempo, é a prática de exercícios físicos.

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Apoio psicológico e tratamento

O acompanhamento psicológico proporciona benefícios e mais qualidade de vida aos médicos que apresentam problemas de saúde mental. No entanto, cabe ao profissional procurar ajuda caso experimente situações como estresse, ansiedade e até mesmo depressão. “Essa é uma iniciativa muito importante, mas é alvo de resistência por boa parte da classe, visto que muitos médicos consideram que não precisam de ajuda”, observa Wimer.

Leonardo garante que o acompanhamento realizado nesses casos é o mesmo que seria direcionado a outros pacientes. Com o auxílio de um especialista adequado, dentro dos prazos estabelecidos e com a medicação apropriada, o psiquiatra afirma que resultados positivos podem ser observados.

“Nesse processo, é importante que exista o incentivo de atividades físicas e psicoterapia. Além disso, o profissional que passa por essa situação precisa refletir sobre seu estilo de vida, para que possa analisar quais melhorias podem ser feitas”, aconselha o especialista.

Mindfulness na Medicina

Existem duas aplicações principais das técnicas de Atenção Plena na Medicina. A primeira é direcionada ao médico, um dos profissionais que está mais sujeito ao burnout, que é o esgotamento profissio­nal. “Ao praticar as técnicas de Mindful­ness, o médico pode administrar melhor o estresse do trabalho e ter mais qualida­de de vida.

Além disso, como está mais equilibrado, do ponto de vista pessoal, o profissional consegue melhorar sua re­lação com o paciente”, avalia Demarzo. Nesse processo, o paciente também é in­diretamente beneficiado, pois o médico mais atento está menos sujeito a erros e pode realizar diagnósticos mais precisos.

A segunda aplicação envolve pro­gramas voltados aos pacientes, pois o Mindfulness é uma opção terapêutica para casos de ansiedade, doenças crôni­cas ou condições crônicas relacionadas ao estresse, como hipertensão, diabetes e doenças inflamatórias ou intestinais.

“Pacientes com distintas condições clí­nicas podem se beneficiar com a apren­dizagem de Atenção Plena, participando de programas específicos que ajudam a amenizar determinados sintomas dessas condições”, sustenta.

Tema de pesquisa no CFM

Atualmente, o psiquiatra Leonardo Luz coordena uma pesquisa realizada pelo CFM, com o objetivo de analisar a saúde mental dos médicos brasileiros. O trabalho, que teve início há dois anos, é realizado por meio de um questionário com perguntas sobre qualidade de vida, enviado por e-mail para médicos de diferentes regiões do país. “O suicídio de médicos tem sido muito debatido, por todo o mundo.

Aqui no Brasil, houve uma situação epidêmica de suicídio de médicos em Pernambuco, há dois anos. Após esse acontecimento, realizamos uma reunião com o presidente do CFM, Carlos Vital, e o coordenador da comissão de comunicação, Hermann Tiesenhausen, chegando à conclusão de que precisamos ter um diagnóstico ampliado sobre a realidade do médico brasileiro”, conta.

A pesquisa pretende avaliar, em linhas gerais, aspectos fundamentais da saúde mental e da existência, ou não, de comportamentos suicidas entre os médicos. “O questionário está dividido em três partes: a primeira aborda a qualidade de vida, de modo geral; a segunda, os dados mais epidemiológicos do perfil do médico que está sendo pesquisado; e a última é dedicada à existência de comportamento suicida entre os profissionais”, explica Leonardo. Os dados ficarão sob a guarda do CFM, mantidos em sigilo e anonimato.

De acordo com o coordenador da pesquisa, a conclusão e a divulgação dos resultados estão previstas para o segundo semestre de 2018. “Teremos, a partir desse estudo, uma mostra sobre como os médicos brasileiros podem estar lidando com o sofrimento psíquico no tocante ao comportamento suicida.

Com as conclusões, também poderemos dar início a encaminhamentos, para realizar ou promover políticas e campanhas de prevenção ao suicídio do médico brasileiro”, informa o especialista.

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