Demografia Médica: um panorama da medicina atual

DEMOGRAFIA-MÉDICA-2018

Estudo demográfico do Conselho Federal de Medicina (CFM) apresenta dados sobre a situação da carreia médica no país e indica deficiência em diversas regiões do Brasil

Em março de 2018, o Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou os resultados da Demografia Médica 2018, no qual, são apresentados dados relacionados a carreira médica no país. Os resultados não foram os melhores: atualmente, o país conta com 400 mil médicos e a projeção é que em 2020 esse número suba para 500 mil, porém, apesar do crescimento, o número de especialistas ainda é escasso em determinadas regiões do país.

Panorama completo da medicina no Brasil

Quantos médicos há no Brasil? Quais são as especialidades mais populares? E as menos procuradas? Há maior presença feminina na carreira médica? Quais são as motivações dos médicos recém graduados? Perguntas como essas são respondidas ao longo da interpretação da Demografia Médica 2018, que de acordo com Mário Scheffer, pesquisador principal e coordenador do estudo e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), ajuda a sociedade a compreender melhor a distribuição dos médicos no país, visto que os dados anteriores não permitiam uma visão do todo.

“O objetivo da demografia, a partir de dados como o crescimento do número de médicos, perfil dos profissionais, as especialidades, a inserção desses médicos no mercado de trabalho, é justamente contribuir para a política de oferta de médicos, formação e distribuição de especialistas, e mostrar para os profissionais da categoria médica como a Medicina se encontra atualmente.

Ou seja, atualizar os profissionais da área”, explica. Scheffer enfatiza que a informação mais difundida ao longo da publicação desse ano foi o aumento expressivo do número de médicos no Brasil. “Esse aumento é histórico e tem a ver com a abertura de escolas. Tivemos de 2010 até hoje mais de 100 mil novos médicos no mercado de trabalho. Por isso, é muito importante olhar para isso”, constata. Com isso, a utilidade do estudo passa não só pela possibilidade de os próprios médicos se informarem sobre a situação da profissão no país, mas também para as políticas de formação, fixação e distribuição desses médicos.

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Especialidades no topo

De acordo com a demografia, quatro especialidades dominam o ranking entre as áreas que concentram o maior número de residentes, no início da carreira médica, representando aproximadamente 40% das vagas em residências médicas. São elas: Clínica Médica, Pediatria, Cirurgia Geral e Ginecologia e Obstetrícia.

Segundo o CFM, as principais escolhas dos recém-formados coincidem com a distribuição dos médicos com título de especialista no Brasil. “As mesmas especialidades são a preferência declarada de 48,3% dos recém-formados, verificada em um estudo que traçou o perfil sociodemográfico dos concluintes dos cursos de Medicina.

Nesse sentido, é possível verificar que há mudanças em curso na oferta de residências médicas que podem repercutir no aumento futuro do número de especialistas em algumas especialidades”, explica o órgão.

Para Scheffer, o posicionamento dessas especialidades está absolutamente coerente com as necessidades do sistema de saúde. “Se pensarmos, por exemplo, em clínica médica e cirurgia geral são especialidades de acesso a outras especialidades (pré-requisitos) é comum que tenha um maior número de médicos e residentes que optaram por elas. Assim como pediatria e ginecologia são especialidades importantes e ligadas a problemas de saúde mais comuns, por isso também são mais escolhidas”, resume.

Além disso, as cinco especialidades com maior número de vagas autorizadas são as mesmas do ranking de médicos residentes. Clínica Médica tem 10,8% de todas as vagas autorizadas no país; Pediatria tem 9%; Ginecologia e Obstetrícia conta com 7,8%; Cirurgia Geral obtêm 7% das vagas credenciadas; e Anestesiologia, 5,6%.

“Definir a necessidade exata de médicos especialistas em cada especialidade, de acordo com as necessidades do sistema de saúde e da população, é um desafio das políticas e pesquisas. A oferta de vagas nas residências depende da regulamentação, do financiamento de bolsas, das políticas de incentivo, da capacidade das instituições e programas credenciados, dentre outros fatores”, aponta o CFM.

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Concentração geográfica: como resolver?

Um dos dados preocupantes revelado pela demografia é em relação a distribuição de médicos no país. Apesar de o número de especialistas ter aumentado, ainda há localidades apontadas pelo estudo com falta de profissionais. O Brasil possui uma das menores médias de médicos por habitantes entre os países no mundo, possuindo apenas 2,1 profissionais a cada mil habitantes, superando apenas a Turquia. Somente a região Sudeste concentra 54,1% do total de médicos no país.

Por sua vez, o Norte apresenta o menor índice entre as regiões, com 20.884 médicos, representando apenas 4,6% do total nacional. Entre os estados, a diferença é ainda maior. Somente o estado de São Paulo possui 28% dos médicos brasileiros. Enquanto o Maranhão possui apenas 0,87 médico por mil habitantes, sendo a unidade federativa com a menor média nacional.

De acordo com Jorge Darze, presidente da Federação Nacional dos Médicos (FENAM) a falta de políticas públicas é um dos fatores que contribuem para essa má distribuição. “Nós não temos políticas públicas no sentido de incentivar o deslocamento de médicos de determinadas regiões densamente povoadas para regiões onde a população médica é escassa. Com isso, vai prevalecer a regra do mercado; esses profissionais vão se concentrar nos grandes centros, onde eles encontram um mercado aberto para trabalho”, pondera.

Scheffer afirma que hoje há uma desigualdade público-privada, no qual os médicos estão mais concentrados nos serviços e nas estruturas privadas que atendem a menor parte da população. “Há uma concentração maior de médicos a favor das estruturas privadas, sendo que apenas 1/4 da população possui plano de saúde, esse é o cenário.

Quando nós combinamos a desigualdade regional com a desigualdade público e privada no sistema de saúde, conseguimos compreender como um país com tantos médicos enfrenta falta de médicos em determinadas regiões. São problemas estruturais, que tem a ver com o sistema de saúde”, lamenta o pesquisador.

Em outros países, como em Portugal por exemplo, há um freio quando se satura o mercado de algumas especialidades, o próprio governo estabelece regras no sentido de incentivar que os médicos procurem as especialidades onde o número presente não é o adequado para o atendimento da população.

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Feminização na carreira médica

A questão do aumento do número de mulheres na carreira médica também foi um quesito observado ao longo da publicação. Historicamente, a Medicina é um campo dominado por homens, porém, de acordo com a Demografia desse ano, a diferença entre profissionais do sexo masculino e feminino está diminuindo. Em alguns estados, o número de médicas já supera o de homens, como no Rio de Janeiro, onde somam 50,8% dos profissionais e em Alagoas, com 52,2%.

De acordo com Darze, a presença da mulher na carreira médica é fruto de uma luta por parte delas. “O crescimento da presença do sexo feminino na área médica é uma consequência de como a mulher vem se colocando diante do cenário nacional. As mulheres têm, de fato, conquistado seu espaço por competência, responsabilidade e uma série de fatores que anteriormente não existiam e isso contribuiu de uma maneira importante para que elas se fizessem mais presentes na profissão”, aponta o presidente da FENAM.

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Problemas no ensino do jovem médico

A formação do jovem médico é um ponto que merece destaque dentro do escopo da publicação. De acordo com Lavínio Camarim, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), abrir uma faculdade não é a solução para resolver os problemas da Saúde. “Durante os últimos 20 anos foram abertas 220 escolas e percebemos que não existem preceptores, professores a contento, nem em quantidade, para suprir todas essas deficiências para formação do jovem médico.

Esse é um problema que nós devemos enfrentar de frente e os governos precisam estar atentos, pois há a possibilidade de formar profissionais que não estejam preparados para atender a saúde da população brasileira”, lamenta. A situação das residências médicas também preocupa.

“Apesar da demografia ter apresentado um número expressivo que chega a quase 1 residente para 1 vaga na residência médica, na realidade, diversos serviços estão inativos e alguns nem chegaram a ser abertos. O correto no país seria que cada vaga de medicina que se abrisse em uma faculdade, houvesse condição de abrir uma vaga para residência médica. É preciso que a abertura das vagas seja proporcional”, sugere.

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Plano de carreira para os médicos

Com os dados apresentados, a demografia revelou que apesar de toda a evolução na carreira, a Medicina ainda precisa trabalhar diversos pontos para melhorar o ensino, atendimento e distribuição. Para Camarim,  um dos principais caminhos para reverter o quadro negativo atual seria criar um plano de carreira para o médico, auxiliando-o a fixar-se em regiões mais necessitadas.

Além disso, o presidente do Cremesp também cita outros fatores que poderiam ajudar o país a melhorar em diversos aspectos da Saúde. “Há muito o que poderia ser feito. Primeiramente ter uma infraestrutura adequada das faculdades, com laboratórios e hospitais-escolas,  boa condição de trabalho, acesso a programas de educação médica e mais do que isso, ter hospitais de retaguarda e equipes multiprofissionais trabalhando juntamente com a assistência do médico. Dessa forma, o médico estaria devidamente pronto para o mercado de trabalho”, sugere.



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