Medicina e carreira médica em 2030

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Na próxima década, o mundo continuará a mudar – e a Medicina e a carreira médica mudarão com ele

É inegável: as últimas décadas trouxeram mudanças, progressos e questionamentos de forma avassaladora – pode-se dizer que de modo incomparável na história. Distâncias tornaram-se mais curtas, a ciência evoluiu a passos largos e a sociedade precisou adaptar-se a isso e a todas as mudanças que vieram a reboque.

Nesse cenário, a Saúde continua em lugar de destaque. Por ser o bem maior do ser humano, é natural que a inovação também tenha chegado com ímpeto à carreira médica. Como consequência do processo, hoje, é preciso que os médicos estejam não só tecnicamente sempre na vanguarda, mas que sejam profissionais com noções de outros ramos, como Administração e Marketing, tanto Digital como Pessoal.

Harmonia entre progresso e humanização

Pediatra com mais de cinco décadas de atuação, Jayme Murahovschi considera que o cenário da Saúde brasileira, hoje, é melhor do que em décadas passadas, apesar de ainda não estar no estágio ideal almejado. “A desnutrição grave é quase inexistente, muitas doenças foram erradicadas ou se dispõe de prevenção, e estima-se que as crianças que estão nascendo hoje vão viver cem anos”, diz.

Devido a essa realidade, o médico, mais do que apenas um “curador”, precisa ser agente que trabalhe em prol da qualidade de vida – um cuidador. “Passamos da fase de curar doenças, a uma fase de cuidados para uma vida longa e saudável”, afirma o pediatra, ressaltando a atual preocupação com doenças inflamatórias/ imunológicas com base genética, como as cardiovasculares, obesidade e osteoporose.

Para que os melhores resultados sejam alcançados, e tanto o paciente seja tratado da forma correta quanto o médico cumpra bem o seu dever, aspectos relacionados à humanização da assistência precisam ser enfatizados.

Entre estes, Murahovschi menciona a empatia e o saber escutar – que vai além de apenas ouvir, abarcando a compreensão e a introjeção. “Unindo a Medicina baseada em evidências e respectiva tecnologia moderna – constituindo a Medicina baseada em experiência e atualização –, o médico pode servir de objeto para realizar a missão divina de tornar este mundo em que vivemos um pouco melhor, pelo menos, ainda em nossos dias”, exorta. Isto é: não é prudente o desejo de retorno à Medicina do passado, com menos recursos, tampouco ater-se aos progressos técnicos.

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Participação feminina na carreira médica

O aumento de mulheres na carreira médica não é apenas uma percepção, e sim uma realidade comprovada pelas pesquisas. De acordo com a Demografia Médica no Brasil 2015, na faixa etária até os 29 anos, as mulheres já eram maioria, entre os médicos:  56,2% contra 43,8% de homens. É a chamada tendência de feminização da Medicina do país.

Demografia Médica 2018: confirmação da tendência

Na edição mais recente do estudo, divulgada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) no último mês de março, a tendência foi constatada mais uma vez. Os números foram, aliás, ainda mais significativos nessa direção, apesar de os homens ainda terem representado 54,4% do total de 414.831profissionais identificados pelo levantamento. O percentual de mulheres na faixa etária até os 29 anos subiu para 57,4%, e elas passaram a ser maioria também na faixa entre 30 e 34 anos: 53,7%.

A pediatra Carolina Monteiro, de 28 anos, comemora o cenário: “Acredito e torço para que essa tendência continue na próxima década, e que possamos ver cada vez mais mulheres se destacando na Medicina”. A Pediatria, aliás, é uma das especialidades nas quais a presença feminina é amplamente superior à masculina: elas são 73,9%. A realidade é semelhante em ramos como Dermatologia (76,9%), Endocrinologia e Metabologia (70,2%), Genética Médica (64,6%) e Hematologia e Hemoterapia (61,9%).

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Os desafios do mercado de trabalho

“Na Pediatria, por exemplo, é importante que eu tenha uma excelente relação com as mães, para que elas acreditem e sigam o tratamento que eu estou propondo”.

Para Carolina Monteiro, o mercado está cada vez mais competitivo. “Há quatro anos, quando me formei, não faltavam oportunidades para os novos médicos – praticamente todos os meus colegas de turma já saíram empregados da faculdade. O mercado está mais exigente, e ter uma especialização é fundamental para conseguir um bom emprego”, afirma. Além de ser pediatra, Carolina cursa, atualmente, residência em Neonatologia.

Cenário semelhante é relatado pelo ortopedista Bernardo Gribel, também de 28 anos, graduado em 2013, ao analisar o momento do mercado. “Não é um bom momento, mas, comparativamente com outras profissões, a carreira médica ainda tem algumas vantagens”, aponta, citando fatores como a remuneração inicial relativamente boa e o fato de a satisfação pessoal na profissão ainda ser presente.

“Mas também é verdade que as oportunidades não são tão frequentes e tão boas como costumavam ser, o que cria condições que favorecem a síndrome de burnout, estresse etc.”, pondera. Como sinais de que o panorama pode estar voltando a ser favorável, elenca o crescimento da rede de assistência privada e o mercado de cirurgias e procedimentos eletivos, que está voltando a se reaquecer.

Em 2014, Gribel serviu o Exército, e, em 2015, ingressou na residência em Ortopedia, finalizada neste ano de 2018. “Minha formação toda foi na rede pública, e, no que diz respeito à Ortopedia, nos últimos anos houve uma piora visível: as filas cresceram e a quantidade de material e a remuneração diminuíram”, analisa.

A piora, para ele, foi multifatorial e coincidiu com a crise da Saúde – e, no caso da Ortopedia, existe o agravante da necessidade de materiais caros, como próteses. Contudo, o médico é otimista: “Diria que estamos em um cenário ruim, mas acredito e espero que a perspectiva seja de melhora – porém, uma melhora bem gradual”. A melhora, ressalta, também está ligada à evolução econômica e política do país, bem como ao investimento no sistema de Saúde.

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O que o mercado quer?

Ao mesmo tempo em que é importante estar atento àquilo que chama a atenção do mercado, é necessário que o médico conheça a si e aos seus pendores. “Em primeiro lugar, acredito que haja espaço para médicos de comportamentos e interesses diferentes”, pontua Alceu Alves, vice-presidente da MV, empresa do mercado de sistemas de gestão de Saúde. “É preciso considerar que existem muitos médicos que não atendem pacientes, mas que são fundamentais em projetos de pesquisa, por exemplo.

Há muitos médicos dos quais precisamos, não necessariamente para trabalhar atendendo paciente.”, explica. Atuação junto a empreendimentos que envolvam a relação da Medicina com a tecnologia são outros ramos possíveis para médicos que não trabalham na assistência.

Alceu, que, entre outras atividades, já foi CEO do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, ressalta a importância de o médico compreender o valor da equipe multidisciplinar. “Cada vez mais, o processo assistencial é dependente de um conjunto de profissões e conhecimentos diferentes, mas que se completam, e o médico é a grande liderança nesse sentido”, garante.

E a carreira pública na medicina?

Conforme José Geraldo Romanello Bueno, professor de Direito Médico da Universidade Presbiteriana Mackenzie – Campinas, o médico, hoje, tem menos atrativos para ingressar na carreira pública, em relação a décadas passadas. “O poder público oferece mais baixos salários e muito menos benefícios do que oferecia antigamente. As prefeituras têm contratado pessoas jurídicas, e não pessoas físicas. O emprego está escasso, e, quando aparece, o médico é apenas um prestador de serviços”, relata. A falta de plano de carreira de Estado e de planos de cargos e salários, para médicos de todos os níveis do Sistema Único de Saúde (SUS), de acordo com o especialista, também é uma questão que deve ser levada em consideração.

A fim de melhorar o quadro atual, o professor do Mackenzie afirma que o Estado (serviços federal, estadual e municipal) deveria pagar melhores salários para os médicos do SUS. “Não havendo carreira de Estado, como têm os magistrados, a perspectiva de melhora do serviço médico do SUS está comprometida e, portanto, fica comprometida a prestação de Saúde garantida pela nossa constituição”, reitera. O especialista ressalta que, havendo carreira de Estado, haveria pagamento digno – assim, os médicos recém-contratados iriam para as cidades do interior. Com esse desenho, a assistência da população, em especial de lugares mais remotos, se beneficiaria.

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Gestão e empreendedorismo

Quanto à Gestão, Alceu Alves alerta: não se pode descuidar do assunto. “Há gente que perde tudo o que ganhou em uma carreira porque não soube fazer gestão”, diz o vice-presidente da MV. No caso dos médicos, essa falha pode estar em diferentes aspectos – por exemplo, na falta de controle da forma como recebe os honorários, na contratação inadequada de um funcionário, ou em não estabelecer uma relação adequada com o seu paciente, podendo resultar em processo.

A solução para evitar problemas dessa natureza não é se tornar um gestor profissional. Contudo, é fundamental ter noções na área, especialmente acerca de assuntos como cobranças e de indicadores que permitam acompanhar o desempenho da clínica. “Há mais interesse por Gestão, da parte dos médicos, sem dúvidas. Leciono em curso de pós-graduação, e há, cada vez mais, alunos médicos”, declara Alves.

Ele ressalta, ainda, que as próprias graduações em Medicina já começaram a atentar para a necessidade de abordar assuntos dessa natureza – isto é, ir além do conteúdo técnico, que, evidentemente, continua e deve continuar a ser o foco. “Os médicos mais jovens já são formados nessa realidade – até porque diversas faculdades de Medicina já discutem aspectos administrativos. Se ainda não está no currículo de muitas delas, há administradores que vão fazer palestras para os estudantes. Eu mesmo já fiz várias”, conta.

Planejamento e empreendedorismo

De acordo com Carolina Monteiro, para que um jovem médico seja bem-sucedido é importante planejar a carreira de acordo com a visão de futuro. “Investir em uma residência médica ou especialização, por exemplo, pode fazer uma grande diferença no longo prazo. Características como determinação, paciência e empatia podem ajudar nessa jornada”, opina. Além de cursar sua segunda residência médica, em Terapia Intensiva Neonatal, Carolina é plantonista em UTI Neonatal e atende Pediatria Geral em consultório, na Barra da Tijuca (RJ).

O empreendedorismo, aliás, de acordo com Alceu Alves, é um dos aspectos que mais tem crescido no meio médico. “Tem-se reconhecido que há também negócios nesse meio, que podem ser feitos de forma ética, segura, desde que se tenha uma estrutura importante para ter um bom processo de Gestão, um bom controle. Assim, o médico pode ser bem-sucedido não só do ponto de vista técnico, mas também como empreendedor”, explica.

Uma das tendências possibilitadas pela tecnologia, que impulsiona a veia empreendedora no ramo, é a possibilidade de replicar setores hospitalares em locais como as clínicas de imagem. “Há muita novidade nessa relação de como tratar a Medicina, com toda a necessidade de ser uma ciência técnica”, conclui. A tendência, portanto, é que haja avanços nessa direção, nos anos que se aproximam.

Marketing Médico

Quando falamos de Marketing, é preciso compreender que, sob esse termo, está uma definição que vai muito além do que é popularmente conhecido como propaganda – e é um conceito que precisa, cada vez mais, fazer parte do dia a dia do consultório. Trata-se não só de conquistar o paciente, mas também de mantê-lo, por meio da prestação de um serviço relevante.

Para que essa empreitada seja bem-sucedida, a tecnologia deve estar em cena. “As transformações da tecnologia, que invadiram o nosso cotidiano, chegam e chegarão aos consultórios”, afirma Alice Selles, mestre em Administração e Desenvolvimento Empresarial e diretora da Selles Comunicação Integrada.

Como exemplo dessa transformação, ela cita mensagens instantâneas, que podem ser enviadas pela clínica ou consultório ao paciente, para confirmar uma consulta. Com essa nova dinâmica na comunicação, proporcionada pela internet móvel e pelos aplicativos, telefonar pode se tornar até mesmo invasivo.

O relacionamento com o paciente também é uma preocupação que está no campo de atuação do Marketing. Quando o médico e o consultório prestam um serviço cuja percepção, por parte de quem o procura, é positiva, está sendo criado um vínculo significativo.

Alice usa o exemplo de um pediatra que, dispondo do registro das vacinas, cria um alerta a ser enviado para as famílias, avisando a época adequada para tomar determinada vacina. “Isso não é fazer propaganda, no sentido pejorativo – esse médico talvez sequer faça a vacinação, mas está prestando serviço. Esse é o conceito de gerar conteúdo relevante para as pessoas, e aproximá-las por meio desse conteúdo”, elucida.

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Atenção ao Marketing Digital na carreira médica

Conforme aponta Alice, o conteúdo relevante para o usuário também é o que move as mídias sociais: “Não usamos as nossas páginas nas mídias sociais em busca de propagandas. A essência das mídias sociais está na informação”. Apesar de essa ser uma área em constante atualização, trata-se de uma dinâmica que permanecerá – independentemente de, por exemplo, o Facebook ainda estar ativo em 2030.

Caso tenha sido substituído por outra plataforma, não significará uma mudança na lógica de funcionamento dessas mídias. Assim, o aprendizado, hoje, poderá refletir em um sucesso futuro no uso das tecnologias e ferramentas que surgirem.

A chegada das mídias sociais na carreira médica já chama a atenção dos próprios profissionais. “Apesar de achar que todo meio de comunicação e conhecimento são válidos, temos que saber que existe uma linha tênue entre o Marketing saudável e a exposição e enganação. Ter isso em mente e usar a Medicina para o bem também contribui para a formação do bom profissional”, analisa o ortopedista Bernardo Gribel.

Alice Selles também ressalta que o chamado exagero na divulgação deve ser uma preocupação: “As mídias sociais têm que ser usadas para ofertar conteúdo”, reforça. Ofertar conteúdo é conscientizar um potencial paciente sobre temas como doenças e cuidados com a saúde. “Em vez de ser um anunciante, você, na verdade, é um profissional que está oferecendo conteúdo relevante. Você é um canal que oferece informação – por isso é acompanhando e seu nome é lembrado”, detalha a especialista.



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