Telemedicina: tecnologia no diagnóstico médico

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A telemedicina vem mudando a forma de assistência médica e a relação do médico com o paciente

O termo telemedicina foi cunhado na segunda metade do século passado, mais especificamente nos anos 1970. Contudo, não é bem demarcado o momento em que as telecomunicações foram empregadas, pela primeira vez, na assistência de Saúde. Sabe-se, porém, que não é um conceito novo – pelo contrário: com a invenção do telefone, conversar à distância com outros profissionais ou obter informações sobre o paciente já eram possibilidades.

Contudo, apesar dos avanços da Medicina e das telecomunicações, ainda há muito campo a ser conquistado nessa área, conforme Frederic Lievens, vice-diretor executivo da International Society for Telemedicine and eHealth (ISfTeH), no ramo há duas décadas. “Mas, mesmo agora, 20 anos depois, a telemedicina ainda não está totalmente integrada à prática médica de rotina em todos os níveis. Então, sim, ainda é parcialmente um conceito do futuro”, analisa. Nesse contexto, é vital a atuação de entidades como a ISfTeH, que visa facilitar a disseminação de conhecimento e experiência em telemedicina e telessaúde mundo afora. Confira a entrevista completa.

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Revista DOC: Alguns dizem que telemedicina é um conceito do futuro. Isto é correto, ou podemos dizer que já é uma parte importante do presente? Por quê?

Frederic Lievens: Quando comecei a me envolver no campo da telemedicina, no fim dos anos 1990, dizia-se que a telemedicina estava “bem na esquina” e era “a próxima grande coisa na área da assistência em Saúde”. Mas, mesmo agora, 20 anos depois, a telemedicina ainda não está totalmente integrada à prática médica de rotina em todos os níveis. Então, sim, ainda é parcialmente um conceito do futuro. Naturalmente, muito aconteceu nos últimos 20 anos e tem havido muito progresso, apoiado pelo uso mais extensivo e disponibilidade da internet, dispositivos móveis, conectividade móvel etc.

Temos visto muitos sistemas de Saúde (nacionais) e/ou provedores e instituições de Saúde implementando uma infraestrutura de eHealth (registros eletrônicos de Saúde, prescrição eletrônica etc.). Mas a construção de verdadeiros serviços de telemedicina com base nessa infraestrutura eletrônica ainda não se concretizou completamente. Algumas das razões pelas quais isso não está acontecendo têm a ver com desafios em torno de financiamento e reembolso, questões técnicas (interoperabilidade) e incertezas jurídicas/regulatórias (ou falta de estruturas jurídicas adequadas).

No lado positivo, há lugares onde os serviços de telemedicina já estão sendo oferecidos com sucesso. Essa também é a boa notícia e a boa prática que estamos buscando compartilhar por meio da nossa rede global da ISfTeH, para que outras pessoas possam aprender com isso e usar essas experiências positivas para apoiar novos desenvolvimentos em seus próprios sistemas de Saúde.

RD: No curto e médio prazos, quais são as mudanças que a telemedicina vai trazer para a prática médica diária, além das que já estão em curso?

FL: Ao longo desse mesmo período de 20 anos, uma incrível (r)evolução ocorreu no varejo, bancos, mídia e indústria de viagens, com uma ampla gama de opções online disponíveis e, em alguns casos, sendo o principal canal usado pelos consumidores para acessar ou comprar esses serviços.
Acredito que veremos isso acontecer na área da Saúde. Em alguns casos e países, será impulsionado pela demanda do usuário/consumidor e pela busca por mais conveniência ou melhor acessibilidade. Em algumas outras regiões, isso acontecerá (e já está acontecendo) devido à grande necessidade por causa do afastamento geográfico e da falta de clínicos gerais ou especialistas locais.

Naturalmente, as questões que apontei anteriormente, em torno de financiamento/reembolso e estruturas legais, precisam ser abordadas. Também as preocupações éticas (em relação à privacidade, segurança etc.) são obviamente diferentes quando se recebe aconselhamento médico online, em comparação à compra de um novo par de calças ou a reserva de um hotel. Então, diretrizes claras precisam ser organizadas ao oferecer serviços e consultas médicas online, para que os usuários possam confiar na qualidade e confiabilidade desses serviços.

RD: Quais são as principais atividades da ISfTeH, atualmente? Ainda há muitos médicos e instituições de Saúde, mundo afora, que não estão familiarizados com o conceito de telemedicina?

FL: A ISfTeH é uma “associação de networking”, com o objetivo de reunir interessados ​​(profissionais e instituições de Saúde, representantes da indústria, legisladores, pesquisadores) de todo o mundo para compartilhar seus conhecimentos e experiências no campo da telemedicina e eHealth. Compartilhar esse conhecimento e essas experiências pode ajudar a acelerar a aceitação e a implementação da telemedicina por colegas em outros países onde a telemedicina pode ainda não ser tão comum. Também estamos procurando fornecer mais orientações e diretrizes sobre como implementar serviços de telemedicina, acerca de aspectos legais, e mais.A maioria dos médicos e instituições de Saúde estão cientes, pelo menos, do básico da telemedicina. Mas é importante fornecer informações claras e trabalhar em parceria com médicos e outros profissionais de Saúde. Os médicos precisam saber como a tecnologia afetará seu trabalho. Não se trata apenas de adicionar algo a uma carga de trabalho já pesada, nem substituir médicos por tecnologia. É mais sobre o uso de novas ferramentas e soluções, que possam dar suporte aos médicos, que possam mudar as rotinas diárias e proporcionar melhor acessibilidade ou mais conveniência a usuários/pacientes.Em nossa rede da ISfTeH temos muitos pioneiros que estão “praticando” a telemedicina, alguns deles já há mais de 20 anos. Eles são os melhores defensores para promover a telemedicina entre seus pares e colegas.

RD: Sobre o uso e a tecnologia da própria telemedicina, o que é esperado que melhore/mude no futuro?

FL: Algumas das evoluções importantes para o futuro são big data, inteligência artificial, machine learning (aprendizado de máquina) e blockchain (protocolo da confiança). Essas tecnologias certamente terão um impacto no diagnóstico médico, no apoio à decisão, na troca segura de informações, nos testes clínicos etc.Com relação ao uso, estou convencido de que as futuras gerações (muito mais do que as do início deste século) impulsionarão automaticamente a demanda por serviços de telemedicina e atendimento online/virtual. Para eles, será tão normal como comprar um novo par de calças online.

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Telemedicina ou telessaúde?

A adoção do termo telessaúde (em inglês, telehealth) reflete a expansão do conceito. Embora, por vezes, seja tratado como sinônimo de telemedicina (a própria Organização Mundial de Saúde faz uso desse expediente no documento Telemedicine opportunities and developments in member states), abarca um conceito mais amplo. Isto é: o uso dessas tecnologias, na área da Saúde, está disseminado para além dos médicos, e já faz parte da realidade e das perspectivas de outros profissionais, como enfermeiras e farmacêuticos.

Definição da OMS

A Organização Mundial de Saúde (OMS) adota a seguinte definição para telemedicina/telessaúde:

“A prestação de serviços de Saúde na qual a distância é um fator crítico, por todos os profissionais de Saúde, utilizando tecnologias de informação e comunicação para o intercâmbio de informações válidas para diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças e lesões, pesquisa e avaliação, e para a educação continuada dos prestadores de cuidados de Saúde, tudo no interesse do avanço da Saúde de indivíduos e suas comunidades.”

Quatro fatores essenciais na telemedicina:

  1. A finalidade é fornecer suporte clínico;
  2. Destina-se a superar barreiras geográficas, conectando usuários que não estejam na mesma localização física;
  3. Envolve o uso de vários tipos de tecnologia da informação e comunicação;
  4. O objetivo é melhorar os resultados da Saúde.

 



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